Mais uma aventura em Taizé

Uma aventura em Taizé  

Têm acontecido muitas bênçãos na minha vida e ser convidada para acompanhar os alunos da minha escola na sua peregrinação a Taizé é, sem dúvida, uma dessas bênçãos. Esta foi a terceira vez que estive com jovens em Taizé, duas delas graças à bondade e acolhimento da extraordinária equipa de EMRC da Diocese de Viseu, que tem uma capacidade enorme de integrar fazer participar os docentes convidados desta que eu gostaria de chamar “Aventura da Misericórdia”. E chamo-a assim porque, independentemente da função que tenhamos, em Taizé, todos somos tocados de algum modo pelo olhar misericordioso de Deus que nos acolhe, e sentimo-nos efetivamente acolhidos, perdoados, amados e regenerados na fé, na esperança e no amor. Ali nos reencontramos com esse amor simples e descomplicado que a todos aceita na sua individualidade, sensibilidade e diferença.
A primeira vez que estive em Taizé foi como adulta e marcou-me profundamente a sensibilidade e a simplicidade desta comunidade orante que, pela sua oração e abertura, se tornou uma fonte de inspiração, vivendo profeticamente a unidade da Igreja no aqui e agora. Fazer esta experiência com os jovens permite-me uma aproximação maior à realidade e cultura juvenil do momento presente e reconhecer os enormes desafios da evangelização neste conturbado tempo marcado pela incerteza a todos os níveis. Os jovens vêm a Taizé com todas as suas incertezas, dúvidas, fragilidades, dores e esperanças. Aliás, como todos nós. E é tudo isso derramado, muitas vezes, em lágrimas, simultaneamente, de alegria e tristeza, sexta-feira, junto à Cruz, no ato e gesto de adoração à Cruz que decorre na celebração da noite. Diz o cântico: “De noche iremos, de noche, que para encontrar la fuente, sólo la sed nos alumbra, Sólo la sed nos alumbra”. O que nos traz a Taizé é esta sede e é ali, diante da Cruz, que se mata a sede, que se desarmam as nossas máscaras e as nossas falsas seguranças e certezas, nos vemos despojados como o Cristo Crucificado posto por terra e reconhecemos a nossa pequenez e dependência desse amor que nos suporta na existência. Este é, sem dúvida, um dos momentos mais marcantes de toda a semana e é quando se vêem sinais dessa Misericórdia que não cessa de nos atrair para Si, nas lágrimas sinceras e incontidas dos nossos jovens, porque não é possível ser tocado por esse amor e continuar indiferente. Vemos ali a cada ano o Kerigma acontecer porque acontece um encontro de amor único entre cada jovem e Jesus, um encontro que fica no segredo do coração de cada um. 
Este evento de uma semana lembra-me sempre a parábola do Trigo e do Joio (Mt 13, 24-30) em que Deus é apresentado como o Senhor da Espera e da Esperança, que não desiste de cada um de nós até ao último respiro, dando-nos sempre mais uma oportunidade. O difícil trabalho da evangelização é este de semear trigo em campos de pedra e joio: num espaço cultural marcado pela competição violenta, mentira, falsidade, afetado por um hiperindividualismo atroz, pela vulgaridade e pela superficialidade,   semear a gentileza, a delicadeza, a empatia, o cuidado e a atenção ao outro e a Deus e a alegria verdadeira, através do testemunho direto, do apoio e acompanhamento individual, mas também através da oportunidade de encontro com outros jovens cristãos e com a poderosa oração da comunidade de Taizé. Acontece que ali se sente de forma intensa quer a força quer a fragilidade da Igreja de Cristo pois nos inquieta uma constatação: A messe é grande e os semeadores são poucos – e uma série perguntas: Que mais podemos fazer para que o mundo se torne todos os dias um pouco melhor? Que mais podemos fazer, enquanto cristãos, para que o nosso testemunho no mundo do trabalho e na própria família seja efetivamente cristão? Que podemos mudar na nossa maneira de ver o mundo, de nos ver a nós e de ver os outros? Quais os sacrifícios que estamos dispostos a fazer no dia-a-dia para que a luz que brilha em Taizé possa ser a luz que deixamos brilhar no nosso olhar para o mundo, acolhendo a cada um como é, mas também desafiando a acolher o projeto de Jesus para a sua vida?
Penso que as Igrejas cristãs e, em particular a Igreja católica, carecem também de uma urgente e clara renovação nos seus métodos, nas suas celebrações, na sua forma de abordar os desafios que nos são colocados por estes tempos, para que os jovens que regressam da experiência de Taizé, onde se sentem acolhidos e amados, possam ter comunidades que os acolham, valorizem o seu potencial e confiem na sua vontade de ser mais cristãos. Assim, as comunidades cristãs realizam a sua missão de ser espaços de comunhão e crescimento na fé. Caso contrário, a experiência de Taizé permanece como uma bela experiência que estes jovens fizeram, durante uns dias na sua adolescência, reduzida a um conjunto de saudosas memórias. É preciso e urgente promover o crescimento do Kerygma que acontece tão vivamente em Taizé.
Agradeço muito e de todo o coração aos excelentes professores de EMRC o convite que me fizeram durante estes dois anos consecutivos e o testemunho da sua fraternidade, fazendo-me sentir com eles uma pequena parte da sua enorme missão.

Helena Castro – Diretora do Agrupamento de Escolas do Sátão