“A GUERRA COLONIAL”

“A GUERRA COLONIAL”

O entrevistado: 
António Joaquim Ferreira Gomes 

(o meu avô materno)

– Quando cumpriu o serviço militar?
Cumpri serviço militar de 6 fevereiro de 1973 a 16 de março de 1975.

– Onde foi incorporado?
Fui incorporado no Regimento de Infantaria 14, em Viseu.

– Qual era a sua patente militar? E a sua especialidade?
Eu era Soldado com a especialidade de Atirador de Infantaria e fiz posteriormente uma formação de padeiro.

– Quando foi mobilizado? O que sentiu?
Fui mobilizado em 17 de agosto de 1973 e senti uma grande tristeza por deixar a minha terra, a família, os amigos e a namorada. Também senti medo, pois iria para uma zona de guerra, onde nem todos os que foram regressaram vivos.

– Em que ex-colónia africana combateu?
Combati em Angola.

– Como era o seu aquartelamento? Em que local ficava?
O meu aquartelamento ficava no Terreiro, uma localidade situada perto da cidade de Salazar. Era um aquartelamento no meio do mato, rodeado de arame farpado, com casernas de madeira cobertas de zinco. Possuíamos redes mosquiteiras para nos proteger dos insetos, durante a noite, enquanto dormíamos.

– Quantos militares faziam parte dessa base militar?
Nessa base militar estava aquartelada uma companhia constituída por 148 homens.

– Como passavam o dia a dia?
O meu dia a dia era passado a desempenhar as funções de padeiro e de responsável pelo depósito de géneros. Portanto, grande parte da noite era dedicada a confecionar o pão para o dia seguinte e durante a manhã a fornecer os géneros para a confeção do almoço e do jantar. Os meus colegas faziam patrulhamentos para dar segurança aos civis, de cor branca, que viviam nessa região. De vez em quando também participei nesses patrulhamentos.

– Que contactos tinham com a população local?
O contacto que tínhamos com a população local era com os fazendeiros de cor branca que viviam na região, pois a sua segurança era uma grande preocupação para nós e com os habitantes nativos que viviam em aldeias designadas por “tabancas”.

– Viveu alguma situação militar de grande perigo? É capaz de a descrever? (Em caso afirmativo.)
Sim, vivi uma situação de muito perigo. Durante uma patrulha, sofremos uma emboscada e fui feito prisioneiro com mais três colegas meus. Estivemos presos vários dias e o que nos valeu foi um miúdo de 5 ou 6 anos que nos abriu a porta do barracão, onde nos tinham prendido, e nos indicou o caminho de fuga. Mais tarde, conseguimos tirar fotografias com ele, que ainda guardo de recordação.

– O seu Pelotão teve alguma baixa?
Não, felizmente não sofremos qualquer baixa durante a nossa comissão de serviço.

– Houve algum caso de mutilado ou ferido grave?
Ferido em combate não tivemos nenhum, mas tivemos um ferido grave resultante de um acidente de viação com um carro de combate, em que um colega partiu uma perna.

– Que recordações, boas ou más, tem dessa época?
As boas recordações são os momentos de grande camaradagem vividos com os colegas, as bonitas paisagens, o clima e a beleza da cidade de Luanda, que considerava mais bonita que Lisboa naquela altura. As más recordações são relacionadas com o medo que estava sempre presente no dia a dia, as saudades da família e dos amigos, que não sabíamos se iríamos ver novamente, e uma doença que contraí, o paludismo, provocada pela picada de um inseto.

– O que pensava, então, sobre a guerra colonial? E hoje, tem a mesma opinião?
Na altura em que prestei serviço militar, considerava que a guerra era desnecessária, um tempo perdido, pois interrompia a nossa vida, como no meu caso, que já estava emigrado em França, para cumprir serviço militar.
Considerava também que era uma guerra perdida, pois toda a comunidade internacional estava contra Portugal possuir colónias e apoiava Angola no combate, face às tropas portuguesas, de forma a conquistar a sua independência. Atualmente, continuo a ter a mesma opinião, mas se há cidade onde gostaria de viver, essa cidade seria Luanda.

A entrevistadora:

Rafaela Gomes Soares, 6º B